Trama

No sofá da sala ela trama com agulha e linha de croché sapatinho para neta recém nascida. Em distância oceânica, no outro lado do sofá, ele lê atentamente a coluna esportiva. A TV fala sozinha. A velha solfeja desafinado um louvor do hinário adventista. Ele abaixa a gazeta para ver uma notícia e retorna aos resultados do futebol. O apresentador diz boa noite, ele responde antes de se jogar na rede da varanda com o radinho de pilha, a lata com o fumo e o papel de cigarros; isqueiro sempre no bolso. Ela guarda o aviamento no cesto e aumenta o volume para a novela. A filha mais nova trancada no quarto com o namorado do outro lado da linha.  Antes da abertura da trama televisiva corre com o remédio da pressão. O papagaio numa nuvem de mosquitos pede café. Ele não sabe o que procura no dial em amplitude modulada e para na entrevista com o governador. A mulher ri com as intrigas novelescas, a filha fotagrafa-se frente ao espelho insatisfeita com o cabelo. Ele pensa em nada. Lambe o embrulho de tabaco e -- ascende -- . O cone de fumaça se desenha no ar.

L.M.

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