Um sádico aquele guarda. Fardado para o mau humor. Brioso peito enfunado para oprimir. Mas o riso escandaliza dois dentes postiços da frente. Há pelo menos uma década passo à calçada do Paço e o cumprimento, sempre em seu turno. Nunca o silvo do apito sob céu na gasta esplanada. Sempre o farfalhar dos oitizeiros, o grasno dos pássaros de ferro e os serviços de sonorização volante e de poste. Os meninos empinam bicicletas na Praça Sete e nunca ouvi sequer uma vez o apito soar. Cães vadios consumidos por perebas e mosquitos descansam, depois da balbúrdia, na calçada do palácio sob a vigília desatenta do guardinha de dentes de prata. Testemunhas de Jeová panfletam por causa divina, e na porta dos bancos os apóstolos do tinhoso babam pela pensão dos aposentados. Um homem de gravata apressado denega o serviço do engraxate, o negro do cafezinho caminha com sua caixa de moedas e quentes-frios, e as belas moças balançam as ancas censuradas por calças justíssimas na mira de olhos acesos no semáforo. A cidadezinha, com sua honesta latinidade, segue protegida numa redoma de cristal em seu exclusivo lugar e os anjos, regularmente, em festa lavam o domo ocultos pela trovoada, para que Deus nos veja nítido e nos faça a conta dos atos mais humanos. Coisas cabulosas até. Olha, teve vezes que o guardinha bem viu, mas prevaricou; nem avisou do pecado.
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