Íamos pela 324 com destino a Salvador, os 44 lugares ocupados. Chovia muito. O homem na poltrona do lado puxou conversa e disse que o anonimato o deixa apavorado na cidade grande. Passados 27 anos (de quê não disse) não mais se anima em ver aquela paisagem. Pudesse não fosse doença, não ia se fosse a passeio. Arregalou os olhos, tinha certeza de que não seria feliz em Salvador; desconsiderou ou esqueceu de me dizer a origem; também eu não quis saber do seu nome. Tantos amigos, continuava, se mudaram para lá, perdendo-se das raízes, família e outros laços, lamentava e lamentava. Talvez tenham uma vida mais interessante, resmungou. Em sua região, disse em elevado tom, é filho de fulano de tal e a mãe zeladora da igreja da matriz; todos o conhecem. Olhando-me fixamente inquiriu: quem afinal seria ele na capital, naquele mar de gentes e morros, e casas despencadas nas encostas perigosas. E a violência? E a guerra entre facções? Completou que, se se lembrava, as vezes em que lá estivera só para retirar alguma via de documento. Outra vez uma excursão do colégio muito tempo atrás e relevelou saudades, de Doralice (ah, e muito falou de Doralice). Ele falava, falava e eu ahã, uhum. Fui no embalo do ônibus adormecendo... Ainda pude ouvir ele dizer que muita coisa mudou, e que apesar de tudo não deixou de gostar. E lembrou dela todos os dias, toda a vida.
L.M.
L.M.
Quantas vidas, quantas histórias ouvimos, involuntariamente, dentro de um ônibus rumo a um destino qualquer.Há pessoas que com uma necessidade urgente de serem ouvidas. Eu também fico apenas no "rum rum", "aham"...rs Excelente crônica!
ResponderExcluirAté hj fico a pensar se ele fugia, ou corria atrás de Doralice. Obrigado pela leitura. 😀
ExcluirAh, ignore o "que" intrometido.rs
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