Tea for two

Ia eu em direção à a Bombinha e a vi com um guarda-chuva no ombro, subia a rua do cemitério - para a Praça da Lua. Paramos à distância recomendada pelas autoridades de saúde. Ela sorriu para mim com um "bom dia". Respondi pedindo notícias do marido, que eu não encontrava  havia semanas. E soube que não estava bem, disse-lhe. Aí, com a precisão de um romancista, ela narrou os eventos desde os primeiros sinais de dor de cabeça, da evolução da doença até a boa recuperação e, aliviada, suspirou: "só uma gripezinha". Eu, por de trás da máscara, com a alegria de quem fugiu para comprar pão, também suspirei aliviado. Ela acrescentou que, embora causasse febre e tosse à noite o micróbio não conseguiu derrubar o homem daquele tamanho, gesticulou indicando a robustez adiposa do amado. E eu quis  saber se tinham procurado assistência, se ele tomou a... antes de dizer o nome impróprio do fármaco da moda, rapidamente olhei em volta; e ela afinou a sua voz em um longo "qui nada", de olhos bem abertos, disse: "chá de casca de laranja com anis e mel", prescrito por ela mesma. Pareceu-me muito melhor do que o xarope da minha vó. Mãinha não pensava duas vezes, toda vez que um vírus maroto me infectava. Sem esquecer da enxúndia de galinha, espalhando-a no meu peito febril, e sobre meu nariz congestionado a boa e velha pomada Vick. Ah, os olhos ardiam e o mentol assenhorava-se de minhas vias, limpando-as, abrindo espaço para o ar... Mas nada disso nos protege deste micróbio desgraçado. Enfim, eu disse que nunca tinha tomado chá de casca de laranja com anis e mel, e imaginei o vapor perfumado da mistura, porém sem esse apocalipse pandêmico iminente, que nos assombra. Despedimos-nos cordialmente e eu, com mais acessórios do que a amiga: além de máscara, óculos e chapéu, carregava o saco de pão. Eu corri para casa, corri porque o pão estava quente. Fui passar um café forte, preparar ovos fritos (gemas moles). Em tempos de distânciamento social, nada melhor, ao som de Art Tatum, “Tea for two”.

L.M.

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