Há quanto tempo não morremos

De dentro das minhas mãos soprava o hálito
de uma palavra, na concha das mãos a chama sagrada,
protegida, uma angústia sem resposta,
e a dor dos lábios partidos pelo ressecamento.
Há quanto tempo não morremos.

Desde quando ele abriu o olho,
se estava entre este e o mundo do sonho,
talvez o dos mortos, uma branca luz
ele dizia seguir antes de lhe chamarem pelo nome,
escutava ainda longe, dizia, a voz da mãe,
mas não era a dela, não naquele sono,
não naquela morte.

A natureza das coisas inalcançável está,
e  os olhos arregalados para a luz no fim do coma,
ou no prenúncio de morte, numa cama de hospital,
no Natal, que se repete em todas as ocasiões
em que se evoca esperança,
e assim o Natal se repete desde antes do Cristo
e renasceram o pagão, o bárbaro, o bizantino,
para não mais morrerem,
e veneravam também as suas virgens
porque semear profanava a alma? Sabeis. 

O que nos resta senão calar abaixo do insondável e divino?
Que nos afaga o peito a cada trezentos e sessenta e cinco noites,
no calendário, em vermelho, que alguém diz é o Natal,
e que Jesus nasceu. No céu parecem-me iguais essas nuvens
deste crepúsculo anual, como ontem,
a mesma estrela brilhava silenciosa no céu silencioso
das quatro da manhã e os primeiros pardais,
os últimos da alvorada de ontem, as andorinhas,
as silhuetas misteriosas da noite de batom,
as ratazanas e mercadores de saciedade,
a catraca das bicicletas e os passos firmes
como relógio pela rua, e acho que  vai chover.

Na cama do hospital a pergunta continua sem resposta, 
e temos que morrer. 
    --Morremo-nos 
  e vivemos, e vivemos enquanto não sabemos
há quanto tempo não morremos.

L.M.

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