Homem da caverna

A folha em branco é como ter chegado à boca do precipício. Aonde cair, por onde descer? Ó primeira letra, âncora para a incrível jornada do alpinista.  Desenrolo o novelo como Teseu, não se perder para contar aventuras. A vida por um fio. Dessas linhas sinuosas que escondem mentiras não deveis duvidar. Zero, um, dois pontos; vinte e sete da madrugada.  Fome dá coragem, que desperta a astúcia; escapar, sobreviver. Mas o homem mora na caverna, foge da chuva e das feras. Na parede iluminada com a tocha de betume desenha o boi que pretende comer no almoço amanhã. Sonhava com o futuro o homem na sua toca de pedra? E o homem de agora, com a sua tabuleta luminosa? Dois minutos à espera de uma ideia para escrever; do boi ao queijo, ao presunto suíno, três passos, dois cômodos até a geladeira. Ainda bem que inventei (adivinho futuros) o caminho de ida, pois não se inventa regresso. Então escrevo. O andarilho que não deseja voltar: só essa vontade de engendrar um país no quintal, outro no jardim, entre eles viajar, ter o que contar. A cama é um saco que carrega nas costas. O único amigo, Cholinha, morreu. Enterrado sei lá quantas léguas na beira da estrada, com uma cruz de bambu. Ele sabe que o companheiro não está enterrado ali. O anjo late o seu nome na língua lá dele toda vez que o sono pega fundo. Não dá pra vacilar nessa vida de errante. A história real é assim, sozinho pela estrada fora a contar os mortos.

L.M.

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